Polêmica do roteiro dos Stories levanta debate sobre atuação dos influenciadores

Especialistas falam sobre profissionalização, florescimento de categorias sociais e econômicas, risco à democracia e ao pensamento nas mídias digitais. (Ilustração: Flavson Pereira/Propagavel)

    
    As redes sociais se tornaram ferramentas essenciais de marketing e comunicação para as narrativas de histórias. Nas últimas semanas, os questionamentos sobre o que é “realidade” ou “encenação” dos conteúdos publicados por influenciadores digitais foram levantados entre os usuários. O burburinho começou depois que uma influenciadora divulgou o roteiro de falas e ações que seguia no dia a dia ao publicar vídeos no Instagram Stories. Com mais de 700 milhões de usuários mensalmente ativos na rede, se engana quem pensa que não existe estratégia por trás das ações dos influencers. Para a especialista em tendências de consumo e estratégia de marcas Izabela Domingos, da Consumix, a situação diz respeito ao processo de profissionalização dessa forma de comunicação nas mídias sociais. Por outro lado, a professora e pesquisadora de redes Carolina Dantas, da UFPE, alerta sobre os contextos de riscos à democracia e ao pensamento, causados pelo “embolhamento” nos sistemas algorítmicos das plataformas digitais.

    “Chama atenção o quanto isso diz respeito a uma profissionalização da atuação. Ou seja, planejar, organizar, gerir conduta, discursos, para obter os melhores resultados. No caso da Internet, toda uma performance do ponto de vista de negócios, muito ligada a capacidade de influência e a de gerar métricas positivas para o seu próprio perfil, para essa pessoa que está na condição de influenciado(a)r”, disse Domingos.

    A pesquisadora Carolina Dantas, que também estuda ciberativismo e desinformação, ressalta as consequências do uso indiscriminado das mídias. “A gente culpa muito as redes sociais. Na verdade, elas são consequências de um contexto mais amplo. Da forma como o conhecimento, a política e arte estão sendo tratados no mundo. Na verdade, as redes sociais evidenciam uma crise que está em curso há muito tempo. Elas são a face mais visível de coisas que estão acontecendo em nossos trabalhos, em nossas relações familiares, na escola”, alerta.

    De acordo com a plataforma INFLR, hoje no Brasil existem aproximadamente 3.534.845 influenciadores digitais (considerando aqueles que têm acima de 10 mil de seguidores). Os dados são de um levantamento do Grupo de Mídia São Paulo, que também aponta que 71% das empresas consideram o marketing de influência importante em suas estratégias de comunicação e 83% das empresas consideram que, com a pandemia, o marketing de influência se tornou "ainda mais" estratégico.

O mercado

  A especialista Izabela Domingos, avalia que os influenciadores tornaram-se canais importantes de comunicação com a população, sendo igualmente relevantes para a difusão de marcas e produtos. “A ‘perfilização’ é uma questão central do consumo de mídia digital e isso vai gerar, de fato, o que a gente chama de ‘agrupamento de tipos de consumidores’, que também vai levar o nome, no planejamento estratégico de marketing de comunicação, de ‘personas’. Ou seja, determinados grupos sociais e seus hábitos, gostos e estilos de vida. E, essa alimentação está sendo feita a partir dos seus dados das mídias sociais, onde as empresas podem direcionar melhor os seus produtos e serviços”.

    Segundo últimos dados divulgados pelo Cenp-Meios, sistema do Fórum da Autorregulação do Mercado Publicitário, as mídias digitais tiveram um crescimento expressivo de audiência e atração de verbas publicitárias, com share de mídia digital saltando de 21,2% para 26,7%. Esse percentual diz respeito à visibilidade do segmento.

    Com um mercado cada vez mais imersivo no digital, a pesquisadora Carolina Dantas acredita que existe uma antecipação das lógicas produtivas de trabalho, nas redes sociais mais populares. “No caso do TikTok, fica evidente, pois a geração que usa a plataforma é a chamada Geração Z. Que é uma geração que praticamente está sendo colocada em caixinhas desde o dia que nasceu. Isso não é visando o bem-estar, qualidade de vida ou felicidade, é visando capacidade produtiva, para um mercado cada vez mais tecnologizado e concorrido. Então, eles antecipam as lógicas produtivas que vão encontrar na idade adulta”.

Ética e futuro

    De acordo com dados reunidos pela Internet World Stats (IWS), que traz atualizações sobre usuários mundiais da Internet, o Brasil possui 149.057.635 utilizadores da rede. Em outro aspecto, as estimativas do IBGE apontam que a população brasileira está em 210.867.954 de pessoas. O cruzamento dos números revela que o país é um dos maiores usuários de internet no mundo. Mas o que esperar para o futuro, neste momento em que tantas pessoas se conectam pelas mídias?

    Embora as discussões em torno dos limites e parâmetros éticos no marketing e comunicação estejam em pauta nos ambientes acadêmicos, as novas atuações e plataformas de mídia preocupam toda uma categoria. “Nessa questão ética, o manejo, por exemplo, das compras de likes, das fazendas de clicks e o manejo de toda opacidade da internet, particularmente daqueles que detém esses meios... Talvez a grande fronteira ética do marketing e da comunicação, hoje, seja justamente essa opacidade que esconde, ou não evidência, como os algoritmos são manejados ou como as entregas são feitas e como esses direcionamento se dão”, disse Izabela.

    A pesquisadora Carolina Dantas reforça que estamos vivendo um momento de consolidação de novas atuações de mídia, que vem ocorrendo de forma gradual nos últimos anos, desde a transição de “blogueiros”, para “influenciadores”, e destes para “criadores de conteúdo”. Em seus estudos, ela considera que as redes podem nos levar para dois caminhos distintos. 

    “Nesse momento, eu não saberia dizer se dialogam. De um lado, vamos ter um florescimento de categorias sociais, de novas formas de manifestação artística, e de uma economia de nicho muito segmentada, que vem dessas redes. Por exemplo, se o TikTok aparece como um problema, as pessoas que estão pensando em arte e conteúdo vão apresentar soluções e formas de utilizar a plataforma, que contemplem aquilo que elas querem comunicar”.

    Por outro lado, Dantas ressalta os contextos de riscos à democracia e riscos aos pensamentos das pessoas. “As redes sociais provocam um fenômeno de embolhamento, a criação de bolhas de retroalimentação. Se eu só vejo um conteúdo, só aquele conteúdo aparece para mim. Isso não é nem a pior parte. As redes sociais digitais não são isentas. Elas têm donos. E os algoritmos são ajustados de acordo com os interesses e as políticas desses donos”, finaliza.

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